Tirar uma soneca, jogar, beber, comer, e se sobrar uns trocados, trepar um pouquinho. Jesus, qual homem não sonhou com uma vida dessas? Se houver um Céu será assim. Perfeito. Mas se por outro lado houver um Inferno, e temo que estarei convocado a passar minha eternidade lá, então a coisa não vai ser desse jeito. Imagino que vai ser algo como o momento que estou vivendo:
Estou com Joana no Pub Hell Angels, que nada tem a ver com os famosos motoqueiros, é apenas uma porra de espelunca metida à besta. Há pelo menos duas horas não dizemos uma palavra. O silêncio é uma merda terrível. Tente entender, ela sai de um casamento procurando diversão, e não do tipo sexual, e o que encontra é um velho drogado querendo enfiar o pinto em qualquer parte do corpo dela. O clima ficou ruim depois que tentei beijá-la no carro, quer dizer, ruim seria uma besteirinha, ficou uma merda completa. Por Deus, ela me manda uma carta dizendo que vem pra cidade, eu me encho de ácido e de esperanças, ela conta que está solteira, vou pensar logo o que?
O garçom com o nome mais gay que conheço nos serve mais duas doses de vodka. Impossível pensar que uma mãe pode colocar o nome de um filho de Ramon. É gay demais. E o que mais me incomoda nisso, Joana não tira os olhos dele. Acho que já fumei o suficiente para destruir a camada de ozônio, mas acendo mais um. Ainda não conseguimos dizer nada, até que Joana perde as estribeiras.
- Puta que pariu, seu bastardo. Eu não sei porque caralhos fui deixar meu casamento pra vir aqui me “divertir” com você. Te olha no espelho, você tá um lixo, um saco de merda. O que caralho aconteceu nesses meses?
Antes que meus lábios possam se mexer, uma figura estranha entra no bar. Uma porra de um anão.
- Jô, andei no fundo do poço, e ninguém conseguiu me tirar de lá. A galera tentou, tentou mesmo, mas eu não quis. Eu precisava sentir o cheiro da merda grudada no sapato sabe? Dirigir até o pôr-do-sol do caralho e morrer de overdose sabe? O que aconteceu com o “viva intensamente e morra muito cedo”? Por Deus, estou com 50 anos mulher! CINQUENTA.
- Crise de velho? Isso não combina com você. – observo o anão passar por nós, porque diabos ele está vestindo um terno VERDE?
- É eu sei.
Percebo que o inevitável vai chegar, terei que abrir minha carcaça podre e mostrar para ela que tenho um coração, e que em todos esses anos só bateu por sua causa. Por uma esperança idiota, por sonhos bobos, essas besteiras. O anão agora me encara, impossível ele não fazer isso, não paro de reparar nos seus sapatos de criança.
- O que rola afinal? Porque a gente não conversa e coloca um ponto final nessa coisa entre a gente que nunca rolou? Isso dura o que? Cinco anos? Porra… – Joana traga seu cigarro, não consigo nem curtir esse momento com cenas pornográficas sem imaginar aquele anão me olhando.
- Tinha que ser assim né? Digo, o final desse negócio que nunca rolou. Um bar medíocre, vodka barata, cigarros, e um anão vestindo verde querendo brigar comigo.
- Esse é o acerto de contas Cowboy?
- Yeah, é o que parece.
- Certo, vamos pedir algo realmente quente… Ramon, por favor a garrafa de tequila.
Aproveito o intervalo para uma respirada. Vou até o banheiro e encontro o anão mijando. Não tenho nada contra anões, até admiro caras que devem ter um pinto minúsculo e fazem cara de mau. Mas ele veio vestido de verde, como um maldito duende! Se eu estivesse em um pub irlandês perguntaria onde está o pote de outro. Ele passa por mim encarando, maldito duende.
Na mesa Joana já está bebendo a segunda, e observando Ramon. Nem ao menos disfarça. Puta do caralho.
- Bom, bom… essa coisa, sentimento, melhor dizendo, que você tem por mim, começou quando?
- Desde que te conheci, eu creio. No início foi só a fantasia do ideal. Depois virou a fantasia do impossível.
- Aposto que não adiantou beber.
- Só piorava, me deixava deprimido, etc. – Percebi então, o quão ridículo estou parecendo. A mulher da minha vida bem na minha frente, disposta a me ouvir, mas unicamente para saber como me dar um fora definitivo.
- Sabe Jô – começo me levantando -, acho que estou fazendo papel de idiota, e que você deve voltar pro George, aquele cara de merda.
- Do que você está falando, senta aí. Não acabamos!
- Você não é minha mãe, caralho. O Ramon ali te leva pra casa, ou quem sabe o pequeno duende. Foda-se essa merda toda.
- Então é isso?
- É.
Passo no caixa, pago a conta toda, ela fica atrás de mim falando um monte de coisa, Ramon tenta acalmá-la. Filho da puta oportunista. Saio pela porta da frente, cambaleando, me perguntando que merda surreal toda foi essa. Mas quem se importa? Tento me recompor, acendo um cigarro enquanto escorrego pela escada até a beira do táxi. Então percebo uma presença diminuta ao meu lado.
- Que tu quer nanico?
- Me chamou de que cara de bosta?
- N-A-N-I-C-O.
Então vejo estrelas, caio no chão de cabeça no meio-fio. Sinto meus bagos explodirem. Típico dos duendes, um golpe baixo, malditos cheiradores de peido. Me arrasto até o táxi, e peço para tocar para casa. Meu ácido acabou, meu cigarro, não tenho mais nenhum centavo além do que pagará essa corrida. Então sem putas, sem drogas, e sem bebida. Me resta rezar aos Duendes por uma erva da boa. Inferno. Deixo uma lágrima cair, mais uma vez estraguei uma oportunidade, talvez a última.