O Casamento – Parte II – Amor de puta é pra sempre

Não você não está perdido. A cronologia é essa mesma: Joana se casou com George e agora está chegando na cidade para visitar o pessoal. Liguei para o Vagareza e estávamos armando uma puta festa, foi quando o telefone tocou. Era Jack One-Eyed avisando que acabara de sair da prisão. Aproveitei que o circo de horrores seria montando e chamei Mick também. Tive medo que a coisa toda fosse muito violenta, nossas últimas festas sempre tem alguém sendo preso, ou algum rabo violentado. Fico feliz que ainda não tenha acontecido comigo, mas nunca se sabe.

Tinha que esperar a Joana  no aeroporto às 16:00 em ponto. Mas não podia ir com o meu carro, ele está todo fodido, e principalmente por que está sem rodas, eu as apostei no poker semana passada. Fui então até uma locadora de veículos, é incrível o que você consegue com um cartão de crédito, uma merda de plástico que pode realizar sonhos. O atendente ficou meio inseguro ao olhar o meu estado: barba de doze dias, cabelo (mesmo que ralo) desarrumado, camisa pólo suja, calça jeans gasta, e um par de chinelos velhos. Mas ao passar minha ficha eu não tinha nenhuma ocorrência, eles dizem “ocorrência”, mas querem dizer “merda”, seu nome passa em um cadastro, onde verificam se você deve pra alguém, se algum acidente, se responde à algum crime… por incrível que pareça estou limpo.

Fomos até o pátio escolher o nosso veículo da morte, todos os modelos que me foram apresentados pareciam para caras com o dobro da minha idade – e sim, existem pelo menos 12 pessoas no país com o dobro da minha idade, caralho. Pedi para ele me mostrar os clássicos, e eis que me surge um Laudau 1965, preto e conversível, perfeito. Fechamos negócio e eu parti com o navio sobre rodas pela cidade. É um puta carro, mas bebe mais do que eu ou qualquer um.

Minha intenção dali em diante era das melhores, iria cruzar toda a Avenida Rutheford até o aeroporto, mantendo a velocidade média de 60 km/h para não chamar mais atenção do que devia, com o braço pra fora, e um cigarro no canto da boca. Mas convenhamos, é impossível dirigir à menos de 140 km/h com aquele carro,  e não demorou muito para que um guarda me parasse. Você precisa ter certo sangue frio em uma situação desse tipo, o porco vai querer te intimidar, ele tem a arma, distintivo, e qualquer desrespeito e você vai parar na prisão por uma noite. Já aconteceu comigo. Mas a grande jogada aqui é você agir feito um maluco idiota.

- Bom dia senhor.

- Bom dia guarda.

- Documentos do veículo, e seus por favor.

- Aqui estão…

- Humm… Senhor… Alabama? Sabe a que velocidade estava?

- Creio que pelo menos 180 km/h.

- Peguei o senhor no radar à 140.

- Putz, deve ter sido na parte em que eu aliviei…

O porco faz uma cara de impaciência, e com uma caneta na mão fica ansioso para que eu comece a pedir desculpas, ou invente alguma história.

- Vai pra onde?

- Aeroporto.

- Está atrasado, eu suponho.

- Não, agora são 14 horas, o vôo que estou esperando é às 16.

- Então porque dirige à essa velocidade em uma rodovia em que só é permitido 60?

- Ora, você consegue dirigir à 60 quando não está de serviço? O que eu posso atropelar nessa avenida deserta? Hoje é domigo! No máximo vou sujar o pára-brisas com alguns mosquitos.

Ele então pensa como vai ser um saco me levar para delegacia, chamar um reboque, pedir reforço para ter testemunho, preencher trocentas papeladas, amanhã me libertar e depois ter que ir até o fórum testemunhar, e caso eu encrespe, tenha que aparecer mais umas cinco vezes…

- Cai fora daqui logo, e vê se maneira.

Isso é piscologia reversa. Alguém já deve ter usado em você. Saio cantando pneu, mas foi sem querer, e me continuo minha jornada.

No aeroporto sento no café e peço uma vodka com gelo, está um calor do caralho. Abro a carteira e confiro meu estoque de ácido. Mas olhar para os pobre-infelizes sem nem ao menos colocar um na língua é covardia demais. Disfarçadamente meto dois na mente. A partir dai a coisa desanda, começo à ficar paranóico, como se tivesse cheirado meio kilo, as cortinas parecem cobras, o chão parece água, minhas pernas tremem, e começo a babar. Uma garçonete se aproxima, eu sei que é uma garçonete pois Jabba The Hutt não tem nenhuma irmã.

- Senhor, está tudo bem? O senhor está suando muito… está passando mal?

A cena que surge em minha mente é insuportável, meu corpo quer reagir, acabar com aquilo, mas não consigo, vejo uma gorda de 1,50 de altura e pelo menos 150 kilos passando mel pelo corpo enquanto lambe suas dobras assadas. O ácido é uma droga esquisita, em um instante a realidade é distorcida, às vezes para melhor, outras vezes nem tanto. Se eu estivesse armado iria acabar com aquilo, não que eu odeie gordas, mas quando se está totalmente chapado elas se tornam insuportáveis.

A garçonete desiste de mim, e de repente surge uma figura conhecida: Vagareza Smith.

- Ei cara-de-caralho, ainda aqui?

- Vagareza! E aí mano… o que porra tá fazendo aqui?

- Você tomou algo?

- Ácido.

- Certo, tudo o que não precisávamos agora é um Alabama chapado pela cidade. Bom cara, tenho uma notícia ruim, Joana ligou e não vem mais. Parece que ela e o George se acertaram e coisa e tal.

Nesse instante acredito plenamente que o Vagareza nem está aqui, e o que estou ouvindo é fruto da viagem ácida. Sempre que estou chapado de ácido perto do Vagareza ele tem cara de morcego. Não sei porque isso, mas ele sempre aparece voando com morcegos e mostrando dentes de vampiro pra mim. O que não é o caso agora, portando duvido que seja ele de verdade.

- Cê tá armado Vagareza?

- Certo, vou te dar a minha arma agora. Você chapado de ácido no meio do aeroporto. Vai ser lindo, vem cara, vamos dar o fora, essa parada vai te levar para a merda total se não darmos um jeito.

Surge então a garçonete. A gorda de 150 kilos. Ela olha fixamente para o meu camarada imaginário, aliás, ela também deve ser fruto do ácido. Ninguém pode ter tantas dobras pelo corpo, e muito menos lambê-las enquanto fala.

- Senhor, pode levar o seu amigo daqui por favor? Ele está assustando os outros clientes, não quero ter que chamar a segurança do aeroporto.

- Vem Jones…

Então eu levanto, como em um salto, as paredes revertem sangue. Minha viagem está muito perigosa agora, preciso desesperadamente de ar puro, saio correndo para rua como se fosse perseguido por abelhas selvagens. Dou uma espiada para trás e vejo o Vagareza imaginário, pagando o café imaginário que bebi, e a garçonete de 150 kilos (imaginária claro),  agradecendo.

- Me dá a chave Jones, eu vim de táxi.

- Como caralhos você pode dirigir se nem está aqui? Você não tem cara de morcego! Você não é nem de perto um morcego!! Por Deus, me deixe em paz, preciso esperar a Joana aqui e…

Apago. E acordo sei lá quanto tempo depois, em uma mesa de um inferno qualquer. Na minha volta, Vagareza Smith, Mick e Jack One-Eyed.

- Parece que tá acordando.

- Gordo, busca uma vodka e enfia na goela dele, isso não vai ser tão fácil quanto parecia.

- Ainda estou chapado?

- Eu te trouxe pra cá depois de apagar no aeroporto. Você tá um caco, seu saco de bosta!

- Por Deus… era tudo verdade? Jack, você saiu da cadeia? Tem mescalina?

- Pelo visto tá tudo bem já.

Apago. Estou tomando umas cutucadas.

- Jones! Pela amor de Deus, você está dormindo?!

- JOANA?! Mas o que..?

Estou no café do aeroporto, todo babado, com uma garçonete gorducha me encarando, e Joana com uma puta mala rosa e uma caveira desenhada à caneta bick.

- Você tá bem? Vamos dar o fora daqui? Uma garota precisa comer.

- É pra já.

Seja o que for que aconteceu, não confio no Vagareza se ele não estiver com cara de morcego. Jamais. Joana resolve dirigir o Landau enquanto eu me encosto no banco do caroneiro, algo me diz que a viagem ainda não passou, e não seria sensato dirigir naquele estado.

Enquanto o vento bate no meu rosto, percebo que não estamos mais na estrada, e sim voando. O Landau decola e abaixo posso avistar toda a maldita cidade, algumas pessoas até acenam. Uma voz então me chama, e vejo morcegos, vários. Um maiorzinho tem a cara do Vagereza Smith.

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