Depois de alguns meses, aquela velha coceirinha voltou. Saí da sarjeta há alguns dias, passei semanas perambulando de um canto a outro, bebendo com desconhecidos e não fazendo nenhuma amizade. Ou pelo menos, nenhuma que valesse um peido se quer. Estou em casa ouvindo “I’ll Your Be Baby Tonight” do Bob Dylan, e bebendo uma droga de vodka barata.
Há algum tempo as coisas mudaram, Joana se casou, Vagareza mudou de cidade, e Mick está namorando – o que é estranho. Fiquei sem rumo, andei por aí, tentei entender o que realmente eu precisava fazer para alguma coisa ter sentido nessa vida. E não descobri. Quando eu caminhei pela calçada rumo ao pôr-do-sol, sentindo uma brisa no rosto e o cigarro no fim queimando meus dedos, eu pensei “não existe merda nenhuma”. Posso estar sendo repetitivo – ou amargo, foda-se, mas a única verdade que descobri nesses meses, é que nada vale realmente a pena.
Um homem de verdade quer apenas as coisas simples, e todos vão concordar comigo: um pouco de dinheiro, bebida de boa qualidade, e uns peitinhos para apertar de vez em quando. Meu amigo, se você tiver essa trinca em sua vida, você é um cara feliz. É triste quando você entra no seu bar de todos os dias, e as pessoas que estão lá não são mais as mesmas de ontem. A paisagem está em constante mudança, menos eu. Estou velho, acabado, e em última instância derrotado. Desisti. Caguei pra todo mundo.
Tive pena, e senti culpa, pelos meus amigos que tentaram me erguer nesse período de merda, ainda não pedi as devidas desculpas. Mas quando você quer chegar ao fundo do poço, dificilmente alguém consegue te parar. Por mais idiota e piegas que possa parecer, o que eu deixei de viver é o que me fodeu nesse tempo, o que eu dediquei, desperdicei… é o mesmo sentimento de você guardar grana pra uma trepada de luxo, e na hora broxar. Você fica revoltado, que voltar no tempo, quer tomar a pílula, ou fazer qualquer outra coisa, mas não estar naquela situação. É terrível.
No casamento de Joana tive esperanças de que no último segundo ela fosse desistir. Que ela fosse preferir a aventura, do que a segurança. Pobre bastardo. Tudo foi perfeito naquele dia, a cerimônia, a festa, a despedida dos amigos… em seus olhos eu não via mais aquele fundo de esperança que me movia, não via. Estava tudo selado e acabado. Naquele mesmo dia, Vagareza me levou até um puteiro fora da cidade, coisa diferenciada, era um negócio para me animar, tudo que eu consegui foi uma garrafada na cabeça do segurança, e do Vagareza apontar uma arma para as pessoas feito um piscopata cheio de ácido.
Agora ouvindo “Forever Young”, também do Dylan, me cortando o coração. Joana se foi. E todo esse tempo de amor valeu à pena? Algum tempo que vivi dessa forma valeu de alguma merda? Mesmo passado alguns meses, ainda tenho raiva de mim mesmo, e das esperanças vazias que me alimentei por vários anos. Preciosos anos.
Como da vez em que eu e Mick fomos à uma festa, daquelas com música horrível, mas de mulheres bonitas – ou pelo menos em grande número, e que passamos a noite toda dando em cima de qualquer uma, da mais bonita à mais feia, e no fim não pegamos nenhuma. Percebemos então que estávamos ficando velhos demais. E claro, dali fomos em uma casa qualquer pagar por sexo, é o que nós velhos fazemos.
Ao fim do vinil uma carta é colocada debaixo da minha porta, me levanto cambaleando esperando mais uma conta atrasada, mas para minha surpresa total, é da Joana. No remetente diz:
PARA ALABAMA BASTARDO JONES
DE JOANA
Rasgo o envelope com uma tremedeira gigante, não sabia que estava tão bêbado, estou ansioso demais, mil coisas surgem à mente, e a velha esperança inunda minha alma, aquele sentimento que eu passei meses bebendo e destruindo com rancor e amargura, aquela merda toda está de volta. E a carta diz:
QUERIDO JONES,
ESTOU INDO PASSAR UNS DIAS NA CIDADE, PRECISO BEBER E FAZER UMA FESTA DAQUELAS, ONDE VOCÊS CUZÕES TEM IDO? QUANDO EU CHEGAR TE LIGAREI.
BEIJO!
Não era grande coisa, mas ela não citou o marido. Percebe? Eu sou um tolo idiota e não consigo largar do meu vício. Abro então o criado mudo e encontro meu último ácido. “Shelter From The Storm” começa a tocar, passo a língua naquele passaporte para o desconhecido e aperto bem o cinto, seja a merda que Deus quiser, o velho Jones está de volta. Putaquepariu.